Comunicação no contexto das organizações: desafios da pandemia

Por Guilherme Pedrosa.

Em 29 de junho de 2020 o Brasil atingiu a infeliz marca de mais de 57 mil mortos e 1,3 milhão de casos gerados pela Covid-19, segundo consórcio de veículos de imprensa formado por G1, O Globo, Extra, O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, que passaram a trabalhar de forma colaborativa desde 8 de junho para reunir as informações necessárias nos 26 estados e no Distrito Federal. Nesse contexto, é importante discutir o papel das organizações como agentes sociais e como elas podem interferir, seja positiva ou negativamente, no atual quadro caótico. 

Organizações fazem parte do tecido social. O equilíbrio entre os três setores desse sistema – o Estado, como primeiro; o Mercado, como segundo; e a Sociedade Civil, como terceiro setor – é fundamental para o funcionamento de qualquer sociedade, assim como executa o papel de agente moderador para controle de excessos, sejam eles políticos, econômicos ou sociais. Dessa forma, a comunicação possui papel preponderante, uma vez que é por meio dela que organizações e sociedade têm grande parte de suas interações.

Podemos destacar assim, brevemente, os grandes desafios de cada setor organizacional.  Isto é, organizações do primeiro setor, geralmente, têm sua relevância garantida, uma vez que o serviço público tem como premissa básica atender demandas da população, como saúde, segurança e educação etc., promovendo seu bem-estar. Se, por um lado, esse tipo de organização tem sua relevância social assegurada; por outro, sofre pressões da sociedade civil por mais transparência.

Nesse cenário, a pandemia tem nos mostrado o quão relevante é a luta por mais transparência dessas organizações. Os maiores exemplos recentes nesse sentido foram a tentativa de ocultar dados sobre a pandemia do novo coronavírus por parte do Governo Federal ou os casos de suposta corrupção na compra de equipamentos hospitalares em estados como Rio de Janeiro, Parána, Pará e Amazonas.  No caso do Governo Federal, em meio ao crescimento dos números de mortes e de casos confirmados, o Ministério da Saúde passou a atrasar constantemente os boletins de divulgação de dados da doença, além de dificultar o acesso à informação por parte da imprensa e da população no site oficial do órgão. A resposta às ações pouco transparentes do Governo vieram por parte de organizações de outras instâncias, como do próprio Estado – quando o ministro do STF Alexandre de Moraes mandou o governo retomar a divulgação dos dados acumulados dizendo que a “publicidade dessas informações é ‘imprescindível'”  e também do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que declarou que o Legislativo se encarregaria de divulgar os dados, caso o Executivo continuasse a descumprir a não publicização das informações. 

Durante o período mais crítico da disputa política, de narrativa e de poderes foram organizações do segundo setor, do mercado, empresas privadas – no caso veículos de imprensa – que se encarregaram de manter a sociedade informada sobre os desdobramentos do Covid-19. A informação é uma das premissas básicas do jornalismo, mas a questão no atual cenário é, justamente, o fato de empresas jornalísticas abrirem espaço para  outras empresas privadas publicizarem suas ações de combate à pandemia. 

Não faltam ações de empresas jornalísticas, como o quadro “Solidariedade S/A”, da Tv Globo, que durante o Jornal Nacional traz diariamente exemplos de como “para ajudar o Brasil nesta crise, empresas e empresários estão juntando esforços”.  No contexto local, em Belo Horizonte, empresas jornalísticas também repetem a iniciativa, como as rádios Band News, 98 FM e CDL, que cedem, gratuitamente, espaços em suas grades de programação para divulgar pequenas empresas da capital mineira. 

Esse fenômeno é reflexo de uma complexificação das interações entre sociedade e organizações. Isto é, empresas privadas estão cada vez sendo mais cobradas por seus posicionamentos institucionais e, além de buscarem obviamente o lucro, precisam buscar também uma boa imagem e reputação por meio de ações de legitimação social. 

A pandemia também nos trouxe exemplos inversos de como uma posição mal colocada pode colocar tudo a perder, como foi o caso de Júnior Durski, empresário dono da rede restaurantes Madero, que declarou que 7 mil mortes não justificariam a paralização total da economia. A reação da sociedade foi de retaliação à fala de Durski, que viu o movimento de sua rede de fast food despencar.Há também as organizações que promovem discursos dúbios em relação à pandemia, como é o caso da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) e a mineradora Vale. Enquanto, a Vale se destaca como uma das maiores doadoras de EPIs e testes rápidos tendo doado mais de 500 milhões de reais para ações de combate ao corona, a empresa vem, segundo matéria do El País, diminuindo o auxílio a cidades que dependem dela por meio dos royalties do minério. A FIEMG segue pelo mesmo caminho promovendo ações coordenadas como doações de máscaras, produção e distribuição de álcool em gel e conserto de respiradores por meio do Senai e doação em dinheiro para o governo de Minas Gerais para abertura do hospital de campanha em Belo Horizonte. Por outro lado, a entidade é uma das que pressiona em várias frentes a reabertura da economia no país e em Minas Gerais, com o presidente da entidade, Flávio Roscoe, chegando a declarar em algumas oportunidades, sem nenhum embasamento científico, que o pior da pandemia já havia passado.

O terceiro setor, representando a sociedade civil organizada, também tem sido fundamental em meio ao contexto pandêmico devido à sua função balanceadora de forças entre mercado e Estado. Inúmeras ações de interesse público e relacionadas ao combate à Covid-19 têm sido veiculadas pela imprensa, como é o caso do The Intercept, que elaborou uma lista com entidades sem fins lucrativos com atividades em cada estado do Brasil. Porém, a própria sociedade ainda tende a desconfiar dessas organizações por problemas muito parecidos, por exemplo, com os vistos nas organizações públicas, como a pouca transparência e corrupção. 

Uma dessas entidades que ganhou notoriedade durante o coronavírus é o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass). A entidade tem sido crítica em relação à gestão do Governo Federal em relação à pandemia e tem produzido ou apoiado uma série de ações de informação como forma de combate à Covid-19. Na crise de ocultação de dados por parte do Executivo Federal, o presidente do Conass, Alberto Beltrame, secretário de saúde do Amazonas, chegou a criticar a medida e classificar as informações censuradas como “de propriedade do povo brasileiro” e afirmar que é “um direito inalienável da população ter conhecimento das informações sobre a pandemia”. Ironicamente, o próprio Beltrame é investigado pela Polícia Federal por supostas fraudes na compra de respiradores pulmonares por R$ 50 milhões para o estado do Pará.

Desse modo, a pandemia serve como modelo de afirmação dos desafios comunicacionais de cada setor, seja a busca por legitimação social, por maior transparência ou por um discurso anticorrupção. Também reafirma a importância do alinhamento das ações institucionais com seus discursos e narrativas, uma vez que a sociedade vem cobrando cada vez mais coerência entre o dizer e o fazer. Reafirma, ainda, a engrenagem necessária entre os três setores, que atuam, assim como na política, como pesos e contrapesos de suas ações.

Guilherme Pedrosa é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC Minas.


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