Fake news e negacionismo em tempos de pandemia: Entrevista com Ivan Paganotti

Créditos: Ivan Paganotti

Por Marcio Serelle (com colaboração de Carolina Cassese).

Ivan Paganotti criou, em 2017, juntamente com os colegas e também professores Leonardo Sakamoto e Rodrigo Ratier, o projeto “Vaza Falsiane”, cujo nome bem-humorado é um repúdio às fake news e à desinformação. O formato pop do curso online, que se utiliza de memes e outras referências à cultura midiática, foi pensado pelo trio como forma de alcançar o público jovem que é refratário a abordagens acadêmicas e ao discurso do jornalismo profissional. A proposta educativa venceu edital de financiamento do Facebook e foi incorporada pela ONG Repórter Brasil. Paganotti, que é professor do colégio Stockler e do mestrado profissional em jornalismo da FIAM-FAAM, em São Paulo, doutorou-se em comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), com estágio na Universidade do Minho, em Portugal. Nesta entrevista concedida ao CCM, Paganotti estabelece relações entre fake news e negacionismo e reflete sobre os limites das agências de checagem. Para ele, o jornalismo não deve ignorar as teses negacionistas, por mais absurdas que sejam, mas abordá-las didática e criticamente tendo em vista um público que está em disputa.

Sobre as fake news na pandemia, Paganotti diz que muitas delas são de tipo tradicional – como as que se referem a curas e outras panaceias. Percebe, contudo, a reiteração de uma estratégia que objetiva desacreditar dados de instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS), como se elas fossem comprometidas ideologicamente ou com interesses de determinados países. Contudo, na pandemia que vivemos, o jornalismo tradicional tem, segundo Paganotti, recuperado a relevância, até porque “a informação correta pode garantir nossa sobrevivência”. Paganotti comenta ainda o fato de plataformas de mídia social estarem excluindo conteúdo falso postado por usuários. “Isso pode resultar na migração dos grupos mais radicais para plataformas de mensagens diretas, para aplicativos próprios e sem nenhuma fiscalização”. Para ele, esses grupos se tornariam ainda mais fechados e opacos, o que impediria a pesquisa e o entendimento de suas estratégias. 

Defina fake news e negacionismo. Qual a relação entre os termos?

Há várias definições de fake news. A mais ampla abarca qualquer informação demonstrada como falsa, o que exclui a intencionalidade na produção dela. Outra, mais específica, que adotamos no Vaza Falsiane, deriva dos estudos dos estadunidenses Hunt Allcott e Matthew Gentzkow, que estabelecem critérios para as fake news. De acordo com eles, fake news são informações verificadas como falsas, dispostas em formatos que simulam ou imitam os jornalísticos e que foram intencionalmente produzidas para ludibriar. Eles se referem a sites criados especificamente para propagar esse tipo de notícia como se fosse conteúdo jornalístico. Essa definição exclui memes, gifs, arquivos de áudio, entre outras formas culturais em circulação. Logo, essa definição exclui também muito do que no senso comum é considerado como fake news. Evidentemente, essas definições ocupam posições distantes em um espectro. Entre elas, há outras abordagens.   

Já o negacionismo é um fenômeno em que indivíduos ou grupos, em virtude da crença que possuem, desconsideram informação e invalidam dados científicos já comprovados. A crença, as ideias preconcebidas e os preconceitos prevalecem sobre a informação. É um fenômeno antigo, embora ganhe nuances nesse contexto de pós-verdade em que o argumento subjetivo possui mais valor do que dados verificáveis.

O negacionismo dificulta o combate às fake news, uma vez que ele desclassifica as fontes de informação por considerá-las comprometidas ideologicamente ou com determinados grupos sociais. É um processo cognitivo que faz com que o indivíduo descarte automaticamente uma informação quando ela não se encaixa na crença dele. Digo que o negacionismo é um fenômeno antigo pois já se manifestou, por exemplo, em posições que negaram e negam a existência dos campos nazistas de concentração. Novos negacionismos refutam a crise climática e, hoje, a pandemia da covid-19. O próprio terraplanismo possui como fundo essa mentalidade negacionista, uma vez que investe contra evidências científicas.

O criacionismo também?

Não, o criacionismo é diferente, pelo menos parte dele. Seu viés não é de refutação, mas de equivalência. Muitos criacionistas não querem propriamente eliminar o darwinismo, mas participar do debate em pé de igualdade. Querem que a posição deles seja legitimada e também considerada, por exemplo, no ensino da sala de aula.

Existe perfil mais propenso a acreditar em uma notícia falsa e propagá-la?

Allcott e Gentzkow identificam três condições principais que levam um indivíduo a acreditar e passar adiante fake news. Primeiro, baixo letramento midiático, como no caso do indivíduo que não possui muitas fontes midiáticas e não navega com desenvoltura nesses ambientes. Geralmente, esse indivíduo não possui conhecimento acerca do funcionamento das mídias. Segundo, a hiperpolitização. Entende-se como hiperpolitizado o sujeito cuja identidade está centrada na política. A política vem à frente de todas as outras questões. Parte significativa da vida dele é consumir e produzir conteúdo político. Esse sujeito hiperpolitizado muitas vezes fecha-se em bolhas, em grupos sociais que são câmeras de eco, com pouca abertura à diferença ideológica. Em algumas ocasiões, ele tem a consciência de que está tratando com fake news, mas a veicula assim mesmo porque acredita que aquela informação falsa pode trazer benefícios para o coletivo. Por fim, há o aspecto do gatilho emocional.  Em certas circunstâncias, uma informação falsa pode afetar o indivíduo de tal forma que ele a repassa, sob impacto e sem reflexão, para determinados grupos de que participa, como grupos profissionais. Mas esse é não é um propagador contumaz, e sim eventual.

Há agências de checagem, mas a que pontos devemos atentar para uma checagem doméstica e cotidiana dos fatos?

Primeiro, sempre questionar o contexto de produção. Quem produziu aquela notícia? Qual a origem da informação? Esse relato faz referências a fontes? Essas fontes estão a que grau de proximidade da informação apurada? Segundo, estar atento à linguagem. Em um texto, o uso de exclamação e elementos que configuram uma modalidade mais emotiva de discurso, assim como generalizações e posicionamentos mais radicais, podem indicar fake news.  Há, ainda, operações de descontextualização. Uma imagem ou uma notícia sobre um acontecimento específico pode ser deslocada e reapresentada como se referisse a outro evento.

Quais são as fake news que mais circulam em relação à Covid-19?

No Vaza Falsiane não fazemos propriamente checagem de fatos ou monitoramento sistemático. Nosso objetivo é compartilhar conhecimento para prevenção. Mas, claro, até em função disso, acompanhamos os cenários. O Ministério da Saúde – ou o que permanece de combativo nele –  possui uma página, Saúde sem Fake News, que esclarece quanto a um conjunto de informações falsas em circulação. De certo modo, o que se vê, são conteúdos falsos já tradicionais como divulgação de curas milagrosas (remédios, produtos, vacinas etc.); acerca de produtos que possam causar danos à saúde como máscaras ou swabs (cotonetes para coleta de exame) importados da China que já viriam contaminados. Mas uma estratégia de fake news que tem se tornado recorrente nessa crise é a de levantar desconfiança sobre informações de entidades de saúde, como a Organização Mundial de Saúde. Essas fake news questionam os números e sugerem, por exemplo, que há uma notificação exagerada. Cria-se uma assimetria nesse campo de informações, pois, muitas vezes, lideranças políticas que também questionam esses dados são mais influentes em determinados contextos do que essas organizações.

Como a imprensa brasileira tem se contraposto às fake news, notadamente nesta pandemia? 

As fake news acabaram por abrir um importante mercado para os jornalistas, pois impulsionaram o crescimento de muitas agências de checagem ou de núcleo de checagens dentro dos próprios veículos tradicionais. Esse é, hoje, um nicho de atuação de jornalistas, que se tornaram especialistas em checagem de informação falsa. Essas agências contam inclusive com financiamento internacional. Mas a checagem é muito eficiente para grupos moderados, não para radicais. Neste contexto da pandemia, a imprensa tradicional tem recuperado sua relevância, até porque informações corretas podem contribuir para nossa sobrevivência. Logo, o jornalismo voltou a se fortalecer. E, quando ele se fortalece, começam também os ataques, as agressões contra os repórteres, como temos visto. É um momento delicado, pois a imprensa já errou demais no passado, e não pode mais cometer erros, já que está sob ataque.

E em relação ao negacionismo? Como a imprensa contemporânea trata a questão? 

Nós queremos acreditar que a verdade irá prevalecer. Que a realidade vai emergir e os fatos vão falar por eles mesmos. Mas não é bem assim. Durante um tempo, a imprensa tradicional relutou em abordar atitudes negacionistas, pois entendia que falar sobre elas era também divulgá-las em alguma medida. Como no caso de Alex Jones [apresentador de rádio e de televisão, cineasta e escritor estadunidense], que propaga teorias da conspiração e nega, por exemplo, os massacres em escolas dos Estados Unidos. Determinada posição na mídia dominante era de que falar sobre Jones, ainda que criticamente, era dar espaço a ele, dar visibilidade e legitimidade. Há esse dilema da legitimidade, e muitos veículos se recusavam a tratar dessas ideias negacionistas, que ficaram, portanto, ausentes das páginas de jornal. Ou, no máximo, havia uma abordagem delas quase que antropológica. Em outros casos, o negacionismo era tratado com escárnio, o que gerava o risco de o jornalismo ser visto como elitizado e antipático por determinados grupos. No entanto, por mais doloroso que seja, é preciso compreender a necessidade de uma abordagem didática desses temas. Esse público está em disputa. Os jornais devem abordar esses temas com uma linguagem acessível que possa mediar a complexidade da ciência e, assim, se comunicar com essas audiências.

Pela primeira vez, o Twitter e o Instagram apagaram posts do presidente Jair Bolsonaro. Acredita que essas plataformas vão passar a atuar de forma mais contundente? 

Sim. Essas plataformas maiores, sim. Mas isso pode resultar na migração dos grupos mais radicais para plataformas de mensagens diretas, para aplicativos próprios e sem nenhuma fiscalização. Essa já é uma tendência, talvez ainda dificultada no Brasil pelo fato de que há em determinadas camadas da população limitações para o uso dessas plataformas, que podem não ser gratuitas e não tão amigáveis como as que dominam as mídias sociais mundialmente. No entanto, se essa migração ocorrer, teremos uma radicalização ainda maior, uma vez que esses grupos irão operar de forma isolada e opaca. Nos grupos de direita, hoje, há moderados, há pesquisadores que acompanham as discussões. Se houver esse fechamento em plataformas menores, não teremos nenhuma forma de acesso a esses movimentos, as essas ideias, o que impedirá o debate com aqueles que podem ser mais sensíveis ao contraditório. Por outro lado, claro, essas mensagens desses grupos radicais circularão, a princípio, com menos abrangência.     

Leia mais sobre o tema.

Márcio Serelle é professor do Programa em Comunicação Social da PUC Minas.
Carolina Cassese é aluna do curso de jornalismo da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas.

Referências

ALLCOTT, Hunt; GENTZKOW, Matthew. Social Media and Fake News in the 2016 Election. Journal of Economic Perspectives, Nashville, vol. 31, n. 2, p. 211-36, abr-jun, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1257/jep.31.2.211

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PAGANOTTI, Ivan; SAKAMOTO, Leonardo; RATIER, Rodrigo. “Mais fake e menos news”: resposta educativa às notícias falsas nas eleições de 2018. In: COSTA, Cristina; BLANCO, Patrícia. (orgs). Liberdade de expressão: questões da atualidade. São Paulo: ECA-USP, 2019, p. 52-66. Disponível em: http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/book/408

PAGANOTTI, Ivan. “Notícias falsas”, problemas reais: propostas de intervenção contra noticiários fraudulentos. In: COSTA, Maria Cristina Castilho; BLANCO, Patrícia (orgs.). Pós-tudo e crise da democracia. São Paulo: ECA-USP, 2018, p. 96-105. Disponível em: http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/274/245/1081-1

TANDOC JR., Edson C.; LIM, Zheng Wei; LING, Richard. Defining ‘Fake News’ – A typology of scholarly definitions. Digital Journalism, Abingdon, vol. 6, n. 2, p. 137-153, ago. 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1080/21670811.2017.1360143  




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