Carnaval, quarentena e pandemia

Por André Vianna Maricato.

Parece cedo para falar sobre carnaval. A festa tão popular no Brasil ocorre nos meses de fevereiro ou março e gera, anualmente, uma grande expectativa na população. Esse período, que resgata os valores da liberdade, da farra e do encontro, está associado a uma fuga do cotidiano. Agora, estamos diante de um dos momentos mais críticos da história do país, marcado por tomadas de decisões equivocadas, desalinhamento político e estratégias ineficientes para contenção da pandemia da Covid-19, que tem afetado o Brasil e o mundo de forma severa. O cotidiano no contexto da pandemia conduz a vida da população no ritmo de insegurança e instabilidade. 

Sobre o carnaval, evento que parecia distante num primeiro momento, alguns fatos históricos são importantes para refletir a respeito dos próximos passos com relação à pandemia. Felipe Ferreira (2004) aponta que a raiz etimológica de carnaval, de origem do italiano carne vale (adeus à carne), nasce condicionado ao período da quaresma. É no seu encerramento que se dá início o longo período de sacrifício e “penúria”. O abuso da carne é uma forma de acúmulo que antecede a falta e a restrição. Isso nos leva a uma curiosidade sobre o termo “quarentena”, que foi atualizado no vocabulário das pessoas. Segundo Paul Sehdev (2002), a origem do termo quarentena está ligada aos dias de resguardo estabelecidos em meados do século XIV por causa das ondas de pragas que assolaram a Europa. Foi então estabelecido o período de trentino, de trinta dias de isolamento do lado de fora dos muros de algumas cidades no continente europeu durante a peste bubônica. O tempo de distanciamento era estabelecido para que os forasteiros possivelmente contaminados não tivessem contato com as populações livres da doença. Após algumas décadas, o método foi utilizado em diversas outras regiões, se adequando a um novo período de quarentino, de origem do italiano quaranta, que significa quarenta. Sehdev (2002) dá algumas motivações que poderiam ter influenciado no acréscimo de dias, dentre elas, a necessidade de um tempo maior para recuperação da doença ou até mesmo por uma associação ao período sagrado do calendário cristão de purificação da quaresma.

Agora, em plena pandemia da Covid-19 no Brasil e no mundo, estamos diante de uma ressignificação da quarentena, que antecede o período carnavalesco e atenta sobre os perigos que podem apresentar a festividade, que reúne um grande número de pessoas, cria aglomerações e tem seu caráter fundado no coletivo e na presença do corpo. A estesia associada à contagiante alegria da festa pode se converter em valor negativo, no risco de infectar mais pessoas.

A relação do carnaval com as pandemias é ainda mais direta quando migramos para o território brasileiro no início do século XX. A gripe espanhola chegou da Europa ao Brasil após a Primeira Guerra Mundial. Ela afetou vários estados brasileiros, mas nada comparado à capital nacional daquele momento, o Rio de Janeiro. A cidade sofreu com uma estrutura precária para tentar controlar a pandemia que já havia afetado bruscamente outras partes do mundo. O grande aumento da população durante as décadas anteriores e o rápido crescimento da cidade, assim como seus bairros, ruas e moradias apresentavam condições estruturais desfavoráveis à chegada da doença, marcando o período com um enorme número de mortes. Na biografia de Nelson Rodrigues, Ruy Castro (1992, p. 26) descreve o cenário: “as pessoas morriam na cama, na rua, em toda parte, e iam sendo recolhidas pelos funcionários da prefeitura. Estes as jogavam nos bondes bagageiros da Light ou nas caçambas dos caminhões e das carroças da limpeza pública.”. O carnaval que comemorou o fim da gripe espanhola,  em 1919, no Rio de Janeiro, é lembrado como um dos mais animados da história da cidade. Castro (1992) afirma que a festa foi uma resposta “bem carioca” ao episódio e deu nome de “carnaval do século” a essa explosão do espírito que se espalhou no território. O autor evidencia que era “como se as pessoas quisessem se atirar à vida antes que o mundo acabasse de novo” (CASTRO, 1992, p. 27). 

O carnaval de 1919
Revista Careta/Biblioteca Nacional

Pouco mais de 100 anos depois, estamos enfrentando a pandemia da Covid-19. A mesma cidade é afetada bruscamente pelo vírus. A capital dos históricos foliões, ranchos e blocos tem hoje seu carro-chefe: o Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. O evento, fruto da consolidação das escolas de samba pouco tempo depois da “espanhola”, tornou-se marca principal da cartografia midiática da cidade, movendo as agremiações e seus integrantes, patrocínios, televisão, público e bilheteria. Todos esses elementos movem um calendário e um ano de produção na capital carioca. No atual contexto da pandemia, as escolas de samba do Rio têm movido esforços para o auxílio às comunidades em que habitam, com arrecadações financeiras e doações de cestas básicas e produtos de higienização às populações. Além disso, as escolas também têm produzido lives de shows solidários com integrantes e músicos renomados. 

Em 23 de abril de 2020, poucos dias após a pandemia da Covid-19 alcançar de forma intensa o Brasil, a escola Unidos do Viradouro, atual campeã da Liga Especial, soltou o enredo “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria”, fazendo referência àquele carnaval histórico após o fim da gripe espanhola. Depois disso, várias outras escolas começaram a movimentar os bastidores com a definição de enredos para os desfiles e a escolha dos sambas para 2021. Em uma live de entrevista para a colunista Rita Fernandes da Veja Rio, no dia 19 de junho deste ano, Leandro Vieira, carnavalesco da Estação Primeira de Mangueira, foi uma das vozes de oposição aos primeiros movimentos dos bastidores. O carnavalesco chegou a afirmar que “não [era] hora para falar de carnaval” e que “anunciar enredo agora é também dizer que, de alguma forma, as coisas estão normais”. Vieira ainda acrescentou que está decepcionado com o descaso da população carioca com relação ao cenário atual da pandemia.

Enredo anunciado pela Unidos do Viradouro para 2021
Divulgação/Unidos do Viradouro

Em vídeo gravado no dia 22 de junho, Alberto João, editor do portal “Carnavalesco”, lembrou das ações movidas pelas agremiações para reduzir os efeitos da pandemia nas comunidades. O jornalista também afirmou que as escolas não seriam irresponsáveis a ponto de fazer um carnaval sem alguma solução e com chances de contaminação de mais pessoas. Por fim, ele questionou a preocupação com aqueles que trabalham no carnaval e fazem dele sua forma de subsistência.

Os bastidores do evento sempre balançaram a cidade do Rio de Janeiro durante o ano, entretanto, o destino final é sempre o mesmo: o desfile na avenida. Para isso são movidos integrantes, passistas, intérpretes, compositores, carnavalescos e demais funções para toda uma escala de criação que dura meses. Dessa maneira, as definições sobre a festa se tornam um ponto delicado de discussão para as agremiações, LIESA, Prefeitura e Estado do Rio de Janeiro. Tudo por conta da complexa cadeia produtiva do evento e a pressão comercial para que ele aconteça.

No dia 14 de julho, divulgado por diversos portais, dentre eles Extra, G1 e O Globo, foi noticiado que cinco das doze escolas da Liga Especial haviam se posicionado contra a realização do evento por conta do atual cenário da pandemia. As demais escolas, mesmo cientes das dificuldades, mantêm cautela sobre o assunto e aguardam os órgãos oficiais. Diante do cenário, parece inviável que ocorra a festa sem uma vacina disponível para imunização da população, entretanto, não há ainda decisão definitiva. Segundo a reportagem do portal Marie Claire, o próximo encontro para discutir o carnaval será em setembro.

Um ponto curioso nas falas dos personagens envolvidos e as posições das agremiações é a escolha de enredo pela Viradouro. A escola foi uma das primeiras a definir o seu e mesmo que esteja fundamentado no carnaval de redenção pela pandemia devastadora de mais de um século atrás, suas relações são explícitas com o contexto atual e não são fruto de qualquer coincidência. Essa afirmação do enredo pode remover de forma irresponsável algumas marcas de memórias e dão margem a uma negação do luto. A precipitação pela escolha do enredo deve ser questionada mesmo que não vá parar na avenida, pois a tristeza tem encoberto o cotidiano do país e ainda não sabemos qual será o final disso tudo.   

Referências

CASTRO, R. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

FERREIRA, F. O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

SEHDEV, P. S. The Origin of Quarantine. Clinical Infectious Diseases, Volume 35, Issue 9, 1 November 2002, Pages 1071–1072.

André Vianna Maricato é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC Minas.

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