Fique em casa (se possível): reflexões sobre o impacto da pandemia nas relações de trabalho

Imagem: reprodução internet

Por Nana Miranda.

A pandemia de covid-19 agravou a crise econômica e evidenciou velhos problemas sociais em diversas esferas. As medidas restritivas necessárias para o afastamento social afetaram o mundo do trabalho e “ficar em casa” pode ganhar sentidos diferentes a depender da perspectiva observada. O trabalho remoto foi introduzido de forma massiva e agora estamos diante de novos conflitos nas relações entre empresa e empregado. Apesar disso, a situação ainda é mais difícil para quem não tem carteira assinada, já que muitos trabalhadores informais tiveram suas atividades interrompidas e perderam suas rendas. Por outro lado, vemos entregadores de app sendo expostos a situações de risco de contágio em nome da segurança dos que devem ficar em casa ao mesmo tempo em que não recebem o devido suporte dos aplicativos. Ainda há de se destacar os efeitos do isolamento no reforço da exploração do trabalho não remunerado das mulheres na organização do cuidado em contexto familiar. 

Após a recomendação de quarentena feita pelo Ministério da Saúde e governos estaduais e municipais, muitas empresas e órgãos públicos passaram a adotar o teletrabalho de forma integral ou com equipes reduzidas trabalhando em rodízio. Contudo, o modelo de home office não é uma novidade para empresas consideradas disruptivas. As ideias de que esse recurso dá mais liberdade ao trabalhador porque flexibiliza seu horário, evita o desgaste com deslocamento e não impõe a figura de um chefe pressionando fazem com que esse modelo seja extremamente sedutor e almejado por muitas pessoas. Porém, a pandemia acelerou os processos e os trabalhadores tiveram que aderir ao home office, sem muito tempo de preparação e reflexão a respeito. 

Após cinco meses de quarentena, a realidade sobre o teletrabalho se impõe e as desilusões vem à tona. Uma pesquisa realizada pelo site Valor Econômico mostrou que 73% dos trabalhadores entrevistados acham que seria melhor não trabalhar tempo integral em casa depois da pandemia. A insatisfação vem da dificuldade de delimitar horários laborais e de lazer, uma vez que a casa vira uma extensão do trabalho e a sensação é de nunca parar de trabalhar. O mesmo lugar onde se deve descansar virou o lugar de cumprir as obrigações, a jornada de trabalho ficou ainda mais intensa, causando pressão e ansiedade. Vivemos uma espécie de atualização da precarização de trabalho através do home office. Os trabalhadores muitas vezes precisam usar seus próprios bens como ferramentas de trabalho. 

A responsabilidade pelo fornecimento de estrutura física como mesa, cadeira, equipamento técnico e até mesmo internet e energia elétrica deve ser questionada. Caso o teletrabalho se mostre definitivo após o fim do período de distanciamento social, as relações entre empresa e empregado precisam ser repensadas para que se defina melhor os moldes desse modelo. O momento é de se discutir o direito do trabalhador de estar desconectado, de ter um limite entre a vida profissional e pessoal. 

Imagem: Instagram Fluxo Marginal

Para os entregadores de aplicativo, o conflito é diferente. Apesar do aumento da demanda de trabalho, o rendimento não aumentou e o risco à saúde é maior. A dependência criada pelos serviços prestados pelos entregadores durante o isolamento precarizou ainda mais o trabalho da categoria e expôs a fragilidade da gig economy. Esse é o nome dado para formas alternativas de trabalho, de caráter autônomo e temporário. Com a alta taxa de 12,2% de desempregados no Brasil, as pessoas veem na informalidade uma oportunidade de geração de renda. Essa “economia dos bicos” se tornou uma tendência impulsionada pelas ofertas de serviço de grandes plataformas digitais e tem como característica a ausência de vínculo empregatício e garantia de direitos trabalhistas. 

A desvalorização da mão de obra desse serviço levou os entregadores a realizarem duas paralisações nacionais por melhores condições de trabalho, uma no dia 01 de julho e outra no dia 25 do mesmo mês. O aumento da remuneração, seguro de vida com cobertura para roubos e acidentes, criação de um local de apoio para alimentação e espera dos chamados dos aplicativos e fim de bloqueios indevidos já eram demandas dos entregadores antes da pandemia. Soma-se a estas questões, a falta de apoio dos aplicativos em fornecer equipamentos de proteção individual (EPI’s) para prevenção ao contágio do coronavírus. Na maioria das vezes, o custo para se tomar os cuidados necessários contra a Covid-19 sai do bolso dos entregadores, assim como os gastos de manutenção dos veículos e de outras ferramentas laborais. 

O trabalho mediado pelas plataformas digitais obedece à lógica capitalista, em que as grandes corporações detentoras da tecnologia lucram às custas da precarização do trabalho dos entregadores e ainda se beneficiam da racionalidade neoliberal para sustentar seus modelos de negócio. A esses trabalhadores é vendida uma ideia de que são empreendedores e livres para trabalhar à vontade. No entanto, conforme Han (2018) explicita, essa liberdade ilusória faz parte de um conjunto de técnicas de dominação presentes na sociedade neoliberal contemporânea, em que os métodos disciplinares são substituídos por um poder inteligente e sedutor. Os indivíduos se submetem à autocoações e obrigações de desempenho e otimização de maneira amigável e espontânea. Isso também dificulta a maior adesão na organização desses trabalhadores em torno da luta por direitos, pois muitas vezes eles não têm a compreensão de que são explorados. 

Imagem: reprodução internet

Uma outra face da pandemia é como gênero e raça têm impactos diferentes na dinâmicas do trabalho. Com a desigualdade social no Brasil, já era de se esperar que homens e mulheres, brancos e não brancos fossem atingidos de formas distintas na crise. Em relação às mulheres, além das preocupações com a sustentação financeira, existe uma intensificação do trabalho doméstico, que por não ser remunerado, é constantemente invisibilizado. 

Uma pesquisa realizada pela Gênero e Número e pela SOF Sempreviva Organização Feminista mostrou que metade das mulheres brasileiras passaram a cuidar de alguém na pandemia, sejam crianças, idosos ou pessoas com deficiência. Com as escolas fechadas, muitas mulheres precisam lidar com o trabalho remoto além do monitoramento e atenção com os filhos, que agora também fazem atividades escolares de forma online ou estão sem aula. Das mulheres que conseguiram se manter empregadas e disseram que estão trabalhando mais durante a quarentena, 55% são brancas. Essa sobrecarga se dá em função de uma divisão de trabalho doméstico, que não é equilibrada e também porque neste momento não é possível pagar por esse serviço, que em sua maioria das vezes é feito por mulheres racializadas. As mulheres negras seguem no grupo de maior vulnerabilidade. Elas são a maioria em atividades informais e portanto mais expostas à suspensão das atividades. Representam 58% das mulheres que estão desempregadas. 

As situações expostas revelam as muitas contradições que envolvem nosso mercado de trabalho, que é modulado também pela estratificação de gênero, raça e classe. Para boa parte da população, ficar em casa não tem sido uma opção. Se elas não podem parar, como vão sobreviver? Quem continua trabalhando e em quais condições? Como resolver essas demandas diante desse cenário? São questões importantes que devem ser pensadas para um projeto igualitário de sociedade, para além da superação da crise. 

Referências

https://valor.globo.com/carreira/noticia/2020/05/08/jovens-brasileiros-se-desiludem-com-home-office-apos-covid-19.ghtml

https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/30/O-que-diz-o-primeiro-dado-de-desemprego-na-pandemia

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018. 

http://mulheresnapandemia.sof.org.br/

Nana Miranda é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC Minas.

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